
Sobre
Lapso é uma prática artística que investiga a cor como matéria viva, linguagem sensível e registro de tempo. Fundada por Bruna Bertoni em 2019, desenvolve trabalhos a partir do encontro entre processos têxteis, pigmentos naturais e experimentações de campo, transitando entre a arte contemporânea, os têxteis para o corpo e os têxteis para o espaço.
O nome Lapso carrega múltiplos sentidos: intervalo, falha, suspensão, desvio. Um lapso temporal, um erro que abre espaço para o inesperado. Na prática artística, esse conceito se traduz na atenção às transformações lentas, às instabilidades da matéria e aos momentos em que o controle cede lugar ao processo. A cor, aqui, não é fixa — ela reage, se desloca, desaparece e reaparece.
Com formação em Artes e Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora e experiência acadêmica internacional como estudante Erasmus na Universidade de Évora, Portugal, Bruna construiu sua trajetória a partir de um diálogo contínuo entre técnica, observação e criação. Seu trabalho é pautado pela pesquisa de corantes e pigmentos de origem vegetal e mineral, pelo tingimento natural e pela produção manual de tintas, investigando como a cor se transforma ao longo do tempo e carrega informações do território de onde emerge.
A prática envolve todas as etapas do processo material: da coleta da matéria-prima à extração do corante, da oxidação à preparação das tintas e sua aplicação em tecidos, fios, papéis e superfícies pictóricas. Essas tintas vivas — sensíveis à luz, à umidade, ao pH e ao toque — revelam camadas, variações e impermanências que se tornam parte essencial da obra. A sobreposição de cores e materiais constrói uma linguagem abstrata que dialoga com estados internos, memórias e ritmos da natureza.
Ao longo dos anos, Bruna desenvolveu projetos por meio de residências artísticas, pesquisas territoriais e trocas com comunidades e artesãos, no Brasil e no exterior. Destacam-se investigações em biomas brasileiros, como o Cerrado, e uma residência artística internacional na Dinamarca, voltada à pesquisa têxtil, à sustentabilidade e ao diálogo com saberes locais. Essas experiências reforçam um interesse contínuo pela relação entre arte, território, ecologia e práticas culturais.
Além da produção artística, a prática também se desdobra em ações de compartilhamento de saberes, por meio de oficinas, vivências e encontros sobre tingimento natural, pigmentos vegetais e processos têxteis experimentais. O registro fotográfico integra esse percurso como ferramenta de observação, memória e pesquisa visual. Mais do que um método, Lapso propõe um modo de estar com os materiais: atento, permeável e sensível ao tempo. A cor deixa de ser apenas superfície e passa a atuar como corpo, vestígio e pulsação — um campo onde vida, transformação e impermanência se entrelaçam.